Minha primeira lição na fotografia de rua
Minha primeira lição na fotografia de rua
Fiquei surpreso quando soube que o tema ainda era um tabu. Mesmo depois de tantos anos, há uma miríade de perguntas, sejam elas relacionadas à liberdade do artista, ou à privacidade das pessoas. A questão é que fotografar as ruas de uma cidade, e, consequentemente a vida dessas/nessas ruas é uma questão não resolvida em muitos aspectos. Como iniciante na arte fotográfica, ainda não tenho respostas, mas gostei do que descobri até agora e vou compartilhar com você, leitor, minha primeira lição: erramos mais do que acertamos, mas é assim mesmo.
As ruas são espaços interessantes, comuns a todos e não pertencentes a ninguém. Nelas, as cidades acontecem. É ao andar nas ruas que conhecemos seus costumes, sua culinária, seu sotaque. Em suas esquinas, ouvimos as músicas mais tocadas, os gritos e sirenes que compõem a sua sinfonia e assistimos à coreografia urbana. Muito cedo, os fotógrafos se interessaram por esses espaços, mas, por causa da tecnologia, ficavam limitados aos seus estúdios, contudo, algo os atraía para fora. O registro de Joseph Nicéphore Niépce é simbólico. Considerado por muitos como a primeira fotografia (será?), nessa fotografia, vamos chamá-la assim, de 09 de maio de 1816, o artista, com sua câmara escura, registrou o lado de fora de seu quarto, ficaram impressos, dessa forma, os telhados vizinhos, bem como a silhueta das travessas entre eles, assim, podemos dizer que a fotografia procurava as ruas desde o seu nascimento.
Com o advento das câmeras portáteis, muitos fotógrafos ganharam as ruas e construíram aquilo que gosto de imaginar como um novo tipo de crônica, semelhante ao que hoje chamamos de foto documental, mas muito mais orgânico, porque sem referencial prévio. Muitos nomes dessa época se destacaram, mas penso poder afirmar que Henri Cartier-Bresson é o mais conhecido. Ele presenteou o mundo com uma visão sui generis das ruas, demostrando aos fotógrafos que era possível “fotografar uma época”, não apenas pessoas. A fotografia, uma das principais representantes da tecnologia moderna, precisava ainda se libertar das artes plásticas, para isso ocorrer sair do estúdio, fugir do paisagismo bucólico e imergir no caos das cidades industriais era essencial e a geração de Cartier-Bresson compreendeu essa urgência.
Entretanto, ao contrário do que ocorre em retratos de estúdios, nas ruas a iluminação não é controlada, quase sempre está longe de ser a ideal, por isso, de certa forma, é certo dizer que o artista acaba se adaptando ao ambiente. Talvez, por isso David Gibson (2020) disse que “fazer fotografia de rua é jogar com a sorte”, mas, como quase todos aprendem durante a vida, a sorte é traiçoeira.
Na street photography é comum que o enquadramento seja impossível, devido a um obstáculo físico, como um poste ou um carro que passa no exato momento do click. Também pode acontecer do dia amanhecer chuvoso ou com uma luz que você detesta e, nesses casos, me desculpem os mais técnicos, não adianta o modo manual.
A fotografia de rua não espera. Às vezes, não dá tempo de configurar, mas você vai perder a foto por causa disso? Há uma foto de Vivian Maier, feita em 1957, que mostra uma mulher, com um lindo vestido de festa branco, dirigindo-se a um carro que parece lhe esperar. A foto é noturna e está com péssima iluminação e desfocada, contudo, eternizou não só aquele momento, perdido no tempo, como também uma época e isso responde à nossa pergunta.
Há ocasiões em que se caminha por horas sem um registro feito. Tudo bem, é assim mesmo. Já em outros casos, vários clicks são feitos, mas a qualidade, você pensa, irá depor contra o teu trabalho. Essas coisas são normais na fotografia de rua, mas o mais importante é que ela continue a ser feita.
Seja com câmeras profissionais, ou com os onipresentes smartphones, as crônicas das cidades devem continuar. Cada cronista irá imprimir sua marca pessoal, mesmo que isso pareça ruim, com o tempo, as novas gerações terão um ótimo retrato das primeiras décadas do século XXI, isso é o importante. Embora muitos profetizem o fim da fotografia, gosto de pensar numa reinvenção, um ressurgimento que mantém sua gênese bem viva e dialoga com sua história de criação e luz.
(Ewerton Rezer Gindri, professor e fotógrafo.)
(Texto publicado originalmente em 04/04/2021)

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